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Depoimentos

Enviado por museu em 28/04/2015 14:30:00 ( 766 leituras )
Meu nome é Sebastiana Beralina dos Santos; sou conhecida como “Tatana”. Nasci em 20 de dezembro de 1919, em Ribeirão de Jaboticatubas, perto de Lagoa Santa. Moro no Jardim Montanhês desde 1941. 
Meu pai trabalhava na roça, uma lavoura grande que a gente tocava. Saímos de Ribeirão de Jaboticatubas porque lá era um lugar muito atrasado, roça mesmo. Só se trabalhava de enxada lá. Então, nós viemos para cá. 
 
 
Na época em que a gente chegou a Belo Horizonte, só tinha mato no Jardim Montanhês. Para fazer o barracão onde eu moro, nós tiramos a madeira do lugar onde, hoje, é a igreja do Chapéu. Em 1942, meu pai fez a casa. Na minha rua, só havia dois barracõezinhos. Do lado de cima, não tinha nada. Tinha outro barracão, que era do chefe do terreno, da família Melo. Aqui, era a fazenda dos Melo, mas, de pouco tempo para cá, virou bairro. 
O ponto final da lotação era um brejo. Ali, a gente furava uns buraquinhos no chão e apanhava água. Onde, hoje, é o colégio Eliseu Laborne Vale, também era um brejão. Não sei nem como eles conseguiram fazer um colégio ali. Era um matagal danado, um capim muito grande. Todo o mundo lavava roupa naquele buraco. Falavam que, naquele buraco, tinha cisterna e apanhavam a água para poder lavar roupa. Era só mato mesmo; não tinha nada nesse Jardim Montanhês. Era trilha de animal. Não tinha rua, luz nem água. A gente tinha que furar a cisterna para poder guardar água, que a gente buscava na mina. 
A luz veio para cá em 1944, no princípio do ano. Minha mãe ainda era viva. Eu não me casei, porque, quando mamãe morreu, no final do ano de 1944, ela me deixou com nove irmãos menores. Eu tomava conta dos meus irmãos. Meu pai era muito doente e morreu em 1950, no mês de junho. Os meus irmãos também morreram quase todos: de nove, sobramos eu, uma irmã e um irmão, que mora perto da igreja Dom Bosco. Ele trabalhou por trinta e seis anos para o falecido Doutor Luciano, na rua Conquista. Saiu de lá aleijado, porque era vigia noturno, e deu ladrão lá. O ladrão deu muito nele e o jogou dentro da piscina. Quando foi de manhã, Dr. Luciano foi chamar meu irmão e viu que ele estava desmaiado dentro da piscina. Ele ficou três dias desmaiado no hospital, dentro do pronto-socorro. Quando acordou, ficou meio louco. Os médicos falaram que ele se assustava com o povo que estava atrás dele. Como ele não estava bem, foi para o hospital Galba Veloso, para doentes mentais. No Galba Veloso, deram nele uma injeção na espinha, porque ele não ficava quieto. Com isso, ele ficou desmunhecado da cintura para baixo. Ele caminha segurando nas paredes. É o único irmão que eu tenho.
Quando a luz veio para o Jardim Montanhês, em 1944, já existiam alguns barracõezinhos. Tinha um armazém lá em baixo, que era de um tal de seu Zé Muniz. Era lá que a gente comprava as coisas. E não tinha muita coisa, não. Quem quisesse alguma coisa diferente tinha que ir até o Caiçara, porque, no nosso bairro, não tinha nada, nada.
Tinha uns vizinhos até muito bons, muito amigos, gente pobre. Todo o mundo estava começando a vida. Era o pessoal do seu Adelino, o falecido Sr. Odílio e o Sr. Hernandes.

Congado
Em 1941, assim que cheguei ao bairro Jardim Montanhês, comecei o Congado. Eu fui a Contagem e achei bonita a festa lá. Conversei com o chefe da Guarda, o falecido Sr. Arthur velho, e ele falou que dependia do lugar. Expliquei a ele que estava mandando fazer um terreiro de cimento para ensaiar. Então, começou o ensaio de quinze em quinze dias, de oito em oito dias e aos domingos. Assim, formei a Guarda num instante. 
Desde então, fazemos Congado, Folia de Santos Reis, em dezembro, e Folia de São Sebastião, em janeiro. Depois, em 23 de abril, faço a festa de São Jorge. Em setembro, faço a festa de Nossa Senhora do Rosário. Começa no sábado: nós levantamos a bandeira no terreiro e, no domingo, festejamos o dia inteiro. Na segunda, quem puder vir dá o arremate da festa. No dia 27 de setembro, faço a festa de São Cosme e Damião, para os meninos. Aí, dou a eles bala, pipoca, balão. Eu tenho que comprar as coisas, porque é muita raça de menino! Agora, eu não saio mais, porque perdi minha perna há quase três anos, mas eu saía para todo o lado com o Congado. A gente ia para São Paulo e Aparecida do Norte. O pessoal da festa sempre vai. O pessoal da rua Pará de Minas, no bairro Padre Eustáquio, é quem faz a festa para mim, porque eu não tenho o chefe da Guarda. Tenho os instrumentos todos, mas não tenho o chefe. Eles vêm com o Congado, e eu chamo outras Guardas de fora para fazer a festa. 
O pessoal de hoje não participa muito. As moças não gostam de dançar; ficam com vergonha. Os rapazes também não gostam. Só os mais velhos mesmo é que dançam. Minhas sobrinhas até dançam, mas elas têm vergonha.
 
Benzedeira
Eu benzo tudo quanto há. Qualquer coisa, eu benzo: picada de cobra, de escorpião, dor de cabeça, sarampo, cobreiro... Minha mãe era benzedeira, e meu pai era benzedor. Dos meus irmãos, só eu aprendi a benzer. Meu pai me ensinou quando eu tinha a idade de doze anos. 
Quando eu trabalhava em Acesita, o povo não me dava sossego. Eu benzia a todo o mundo que morava para os lados de Timóteo, Ipatinga e Coronel Fabriciano. Eu morei nesses lugares todos, trabalhando em cozinha e usinas. Na Acesita, eu trabalhei na usina, carregando ferro quente para jogar dentro do forno. Ficava lá durante a semana e vinha nos fins de semana. Teve um tempo em que eu fui trabalhar em São Lourenço, Três Corações, Rio de Janeiro, sempre em usinas e na cozinha. Eu não parava só um dia! Às vezes, eu trabalhava dia e noite, sem ir para casa. Eu gosto de trabalhar.
Hoje, eu continuo benzendo, e minha casa fica cheia. Tem um tanto de gente que eu benzo por carta: eles escrevem e falam como é que estão. Eu benzo daqui para lá e escrevo: “Faça isso e aquilo...” Eles escrevem nome, endereço, e eu benzo, todo dia, por nome. Costuma vir gente de São Paulo, Brasília, Rio de Janeiro, Vitória. Outro dia, por exemplo, chegaram treze pessoas de São Paulo, de uma vez.
 
Lembranças do Montanhês
Não tinha nada de diversão aqui. Depois de construírem a igreja do Chapéu, ficou melhor. Antes, a gente tinha que ir à missa no bairro Padre Eustáquio, onde tinha uma capelinha. Aliás, o próprio Padre Eustáquio chegou a ficar um tempo no Montanhês. Ele morava num pequeno cômodo que ele construiu, quando veio para cá. Aos domingos, ele celebrava a missa na capelinha de Cristo Rei, no Celeste Império. Mais tarde, ele ficou doente, chegando a morrer no hospital Alberto Cavalcanti, aqui no bairro. Morreu de uma picada de carrapato. O carrapato picou o umbigo dele, ele teve febre e morreu. A cama dele está lá. Até hoje, o pessoal arruma a cama onde ele morreu, no hospital Alberto Cavalcanti, e o quarto tem o retrato dele.
Eu me lembro do Cristo, o Sr. Oswaldo. Ele falava que era Cristo e que ele benzia... 
Tinha festa de barraquinha na igreja Padre Eustáquio. Agora, as festas acontecem na igreja do Chapéu. 
Da horta do seu Manuel Português, eu me lembro. Ele era uma pessoa muito boa, muito legal; não mexia com ninguém. Vendia só frutas e verduras.
Eu sinto saudade do pessoal daquela época. Hoje em dia, o pessoal é muito revoltado; falta união com o outro. Antigamente, era bem melhor, bem mais calmo que hoje.
Eu gosto do Jardim Montanhês. Até já gostei muito mais daqui, mas, ultimamente, fiquei meio aborrecida, porque perdi a minha família toda aqui. Ficou pouca gente, e apareceram outras pessoas. Mas eu já gostei muito desse lugar aqui. Eram outras pessoas; parece que era diferente. As pessoas procuravam mais a gente, eram mais animadas. Hoje, acho que a situação é outra.
                                                       
Depoimento cedido em 28/07/2004
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