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Depoimentos

Enviado por luisa em 25/02/2013 15:00:00 ( 3540 leituras )

Meu nome é Wilson Teixeira Moreira, nasci em Sete Lagoas, Minas Gerais, e com os meus pais e meus três irmãos passei minha infância em Pedro Leopoldo, lugar onde continuei frequentando quando mais velho de trem. O meu pai era ferroviário e devido a isso eu e meus irmãos, José, Waldir e Maria Zilá, tínhamos passe-livre, ou seja, a oportunidade de viajar gratuitamente. Mudei para Belo Horizonte aos 13 anos de idade e lá iniciei minha trajetória profissional.


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A princípio, meu sonho era cursar Medicina. Porém, por influência do meu irmão mais velho, me encantei pela Engenharia Civil quando ele ficou encarregado de chefiar o projeto de construção do Estádio Governador Magalhães Pinto, o Mineirão, no início da década de 1960. Naquela época eu ainda era estudante de Engenharia de Agrimensura.

 

Ainda sobre minha carreira acadêmica, fui um dos fundadores da Escola de Engenharia Kennedy, onde fui, ao mesmo tempo, aluno e professor – professor de Engenharia de Agrimensura e aluno de Engenharia Civil. Lá, fiz parte da segunda turma a se formar, no ano de 1972. Nesse período já era casado com Maria de Lourdes Abate, que me deu duas filhas Vanessa e Alessandra. Hoje tenho três netos e espero ganhar um bisneto logo. No ano passado, em 2012, a minha turma de Engenharia Civil completou 40 anos de formatura.

 

Após me formar, trabalhei com canalização de córregos e implantação de avenidas sanitárias para a SUDECAP (Superintendência de Desenvolvimento da Capital) e na construção da Usina Hidrelétrica de Itaipu, quando atuei como coordenador de montagem eletromecânica. Fui também diretor técnico do DAE/MG (Departamento de Águas e Energia do Estado de Minas Gerais), membro do Comitê de Bacias Hidrográficas do COPAM (Conselho de Política Ambiental de Minas Gerais) e consultor na área de engenharia para as empresas Engevix Engenharia S. A. e Tractebel Engineering (GDF SUEZ), que no Brasil é representada pela LEME e cujo serviço presto até os dias de hoje. Além disso, trabalhei por 20 anos e 22 dias na CEMIG, com linhas de transmissão, e já viajei grande parte da América do Sul a trabalho.

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          O Engenheiro Wilson Teixeira com alguns companheiros no Chile


Como engenheiro, sou também reconhecido por meu trabalho pela recuperação da Lagoa da Pampulha, mas minha história com a lagoa vem de muito tempo. Quando eu tinha 15 anos de idade, Minas Gerais era campeã de natação infanto-juvenil. Entusiasmado com o esporte, fui ao Minas Tênis Clube tentar fazer parte da equipe. Chegando lá, andava pela beira da piscina quando um garoto me empurrou lá dentro. Era o filho de um dos diretores do clube à época. Nós brigamos e eu acabei sendo expulso do clube. Ainda animado, fui ao Iate e acabei fazendo parte integrante da natação do clube. Assim começou minha história com a lagoa. Em um período em que os esportes náuticos eram mais tradicionais, antes mesmo de ser engenheiro, já remava por suas águas, à época limpas.

 

Hoje, aos 80 anos de idade, sou morador da região da Pampulha e a vejo como uma gigantesca fossa fedorenta, infelizmente. Os prefeitos que por aqui passaram não souberam desenvolver projetos para a recuperação da lagoa e para o melhoramento do trânsito. Nos dias atuais, fala-se da verticalização da Pampulha e da modificação de seu entorno, mas, para mim, o problema mais grave e urgente é a recuperação da lagoa. Além do odor, a água do esgoto despejada na lagoa contamina os peixes, que por sua vez contaminam as aves que se alimentam deles pela cadeia alimentar.

 

Há muitos anos me preocupo e trabalho pela recuperação da lagoa. Em 1986, como membro do Plenário e da Câmara de Mineração e Bacias Hidrográficas da COPAM (Comissão de Política Ambiental do Estado de Minas Gerais), passei a inteirar-me de todos os problemas ambientais e sanitários que aconteciam na lagoa. Tornei-me um autêntico estudioso do tema e fui designado para emitir o parecer técnico que serviu de base para a suspensão da execução dos trabalhos de “Desassoreamento Através de Dragagem”. O trabalho havia sido projetado pela Prefeitura de Belo Horizonte, através da SUDECAP, durante a gestão do ex-Prefeito Sergio Ferrara e apresentava-se como uma “Obra Inócua”, se fosse executada isoladamente, sem outras para evitar que os materiais de assoreamento continuassem chegando na mesma.

 

Posteriormente, durante a gestão do ex-prefeito Pimenta da Veiga, foi criada a Secretaria Municipal de Meio Ambiente que se encarregou de licenciar as obras ambientais do município de Belo Horizonte. Naquele período, preparei um anteprojeto de recuperação da Lagoa da Pampulha, denominado “Nova Concepção Técnica para o Projeto”, que foi oferecido ao prefeito, através dos vereadores Eugênio Parizzi e Arutana Cobério (Presidente da Câmara), e que previa a construção da segunda pista da Avenida Otacílio Negrão, com a utilização do material do assoreamento. As duas pistas seriam separadas por um canal que conduziria para fora da lagoa todos os córregos contribuintes da mesma, além de conter a indicação de outras medidas que garantiriam o retorno da potabilidade da água represada. Porém, o trabalho foi recusado e outro trabalho foi executado no local, o “Serviço Paliativo de Drenagem”, que serviu apenas para abrir espaços para novos materiais de assoreamento, lixo e esgotos a serem aportados na lagoa, bem como criar novas ilhas. Esse mesmo trabalho meu foi também apresentado e recusado, posteriormente, pelo ex-prefeito Fernando Pimentel.

 

No governo de Itamar Franco, outra tentativa desajeitada foi realizada. Itamar requisitou que a COPASA fizesse uma estação de tratamento dos córregos que desaguam na lagoa. Como engenheiro, sei que tratar água corrente é perda de tempo. Foram gastos 75 milhões de reais para a execução de uma obra que não traria resultados satisfatórios. Sendo assim, a Lagoa da Pampulha continuou poluída e mal cheirosa. Além disso, teve também os problemas com os aguapés, que nada mais eram que produtos da sujeira. 

 

O rompimento da barragem em 1954 foi um problema ocorrido devido a “Falta de Filtros de Areia e Brita”, para interrupção e desvio da percolação de água no corpo da mesma, fato este que provocou a erosão e o alargamento desses caminhos, chegando ao ponto de se romper, provocando um grande alagamento à jusante, mas como na época a urbanização ainda não havia tomado conta da região, não tivemos grandes danos com ao ocorrido. A mando do presidente da época, Juscelino Kubistcheck a barragem foi refeita imediatamente.

 

 Ainda hoje, a Prefeitura de Belo Horizonte procura suporte financeiro para fazer “drenagens cegas” e retirada de lixo e aguapés da lagoa. Observa-se que a situação da lagoa está bastante crítica e com sérias tendências a piorar em um curto espaço de tempo, podendo chegar até a provocação de sua “morte prematura”. Porém, ainda existem condições de reverter a situação, mas só em caso de aplicação de tecnologia adequada, com medidas suficientemente criativas, de fácil execução e a um custo bastante acessível. Precisamos de soluções que ofereçam resultados imediatos, que proporcionem condições de sobrevivência definitiva da lagoa e que eliminem os perigos e ameaças provocados por sua bacia de contribuição. Isso representaria a recuperação total e definitiva da grande herança deixada por JK a Belo Horizonte. 

    

Depoimento cedido em 06/02/2013

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